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Agressões sexuais expõem o machismo tóxico no futebol

Agressões sexuais expõem o machismo tóxico no futebol

O futebol feminino profissional, permitido no Brasil somente a partir de 1982, contribui para combater a masculinidade tóxica que impera entre jogadores masculinos e também na imprensa esportiva, que só agora começa reconhecer a violência sexual como um resultado da masculinidade agressiva cultivada no mundo do futebol

por Mario Osava

A detenção preventiva de Daniel Alves, conhecido jogador brasileiro, em Barcelona, desde o dia 20 de janeiro, por suposta agressão sexual a uma mulher de 23 anos, é um marco na luta contra a impunidade desses crimes no Brasil.

A sua repercussão reavivou o caso do diretor técnico Alexi Stival, conhecido pelo apelido de Cuca, condenado na Suíça por estuprar uma menina de 13 anos em 1987, quando era jogador do Grêmio, durante uma excursão pela Europa.

Contratado em 20 de abril para treinar o Corinthians, Cuca teve que renunciar uma semana depois, diante dos protestos dos torcedores, comentaristas esportivos e das jogadoras da equipe feminina do mesmo clube.

Outro jogador condenado por estupro sexual, mas na Itália, Robson de Souza, o Robinho, também teve sua carreira interrompida pela rejeição dos torcedores em 2020, quando tentou voltar ao Santos, clube em que iniciou a carreira ainda adolescente em 1996. Ele esteve na seleção brasileira entre 2003 e 2014.

“O futebol é um ambiente que cultiva o machismo, e o naturaliza desde que começou sua bem-sucedida jornada no Brasil, no final do século XIX”, observa Leda Costa, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes (Leme) da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Mas a atitude da sociedade tem mudado nas últimas décadas. Em 1987, Cuca e seus quatro colegas que, de acordo com a sentença, praticaram um estupro coletivo na Suíça, “foram recebidos quase como heróis pela imprensa brasileira, e o que fizeram não era considerado um crime”, lembra Leda.

A justiça suíça condenou os estupradores a 15 meses de detenção em 1989, mas eles ficaram livres no Brasil. Cuca seguiu sua carreira como jogador no Brasil e depois como técnico de 23 equipes, com alguns triunfos nos campeonatos nacionais e internacionais, até que a rejeição social interrompeu sua carreira agora, aos 59 anos de idade.

Já Robinho sentiu o peso dessa mudança há três anos. Ele participou do estupro coletivo de uma jovem albanesa de 22 anos, na companhia de outros cinco amigos brasileiros, em 22 de janeiro de 2013, em uma casa noturna, segundo a sentença do tribunal de Milão, que o condenou a nove anos de prisão em 2017, quando ele já havia voltado a jogar no Brasil.

Após a confirmação da sentença pela Suprema Corte da Itália, em janeiro de 2022, o Ministério da Justiça italiano solicitou a extradição de Robinho ou que a pena fosse cumprida no Brasil. Ainda sem uma decisão da justiça brasileira, Robinho segue em liberdade, hoje com 39 anos.

O Brasil não permite a extradição de cidadãos do país, criando um ambiente de refúgio para os brasileiros que cometem delitos em outros países e buscam proteção em solo nacional.

O técnico de futebol Cuca teve a sua carreira finalmente interrompida em abril por protestos de torcedores, 34 anos após sua condenação por estupro de uma menina de 13 anos na Suíça, junto com outros quatro jogadores brasileiros durante uma excursão pela Europa. (Fotos Públicas)

A Espanha combate a violência sexual

A repercussão desses casos e o avanço na luta para conter a violência contra as mulheres foram fatais para Daniel Alves, ídolo do Barcelona entre 2008 e 2016 e da seleção brasileira entre 2003 e 2022. Acusado de agressão sexual na noite de 30 de dezembro de 2022 em uma boate em Barcelona, a justiça local o mantém em detenção preventiva desde 20 de janeiro, com base em suas declarações contraditórias e em provas obtidas durante a investigação. O risco de fuga foi o elemento-chave para que a juíza do caso ratificasse mais uma vez, na última terça-feira (9), a decisão de mantê-lo na prisão.

A situação de Alves contrasta com a de Cuca e Robinho, que permanecem livres, devido a um protocolo estabelecido na Espanha, no qual estabelecimentos noturnos adotam mecanismos de prevenção e proteção contra a violência sexual, com pessoal capacitado. É o que destaca Liliane Brum, ativista da Rede de Desenvolvimento Humano, com sede no Rio de Janeiro.

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Em Barcelona, dezenas de locais aderiram ao protocolo “No Callem” (do catalão “Não nos Calemos”) desde 2018, após demandas de organizações feministas. Trata-se um mecanismo crucial para “a responsabilização imediata” dos agressores e a clara definição do suposto delito diante da falta de consentimento da mulher e de sua denúncia, esclarece Liliane.

Há avisos de segurança, recomendações, além de câmeras que registram o que acontece nos banheiros e em outras partes do estabelecimento. Fatores como estes ajudaram a comprovar a denúncia da vítima de Daniel Alves na boate, depois que o porteiro do local a viu chorando ao sair e lhe perguntou o que havia ocorrido. Diante da declaração da mulher, o protocolo, que incluiu uma chamada imediata à polícia, foi ativado.

“A eficácia do sistema, nesse caso, é um ponto positivo, uma lição a ser lembrada e imitada”, destaca Liliane, que tem formação em antropóloga e é apaixonada por estudos sociais dos esportes.

“Essa nova abordagem de combate à violência, com punição efetiva, é muito singular. A Itália deixou Robinho escapar. A Suíça levou dois anos para condenar Cuca, sem a sua presença”, comparou Costa, ao reconhecer a indulgência no combate policial e judicial aos delitos contra as mulheres no Brasil.

A repercussão de agressões sexuais cometidas por jogadores de futebol brasileiros na Europa motivou a luta de Leda Costa, pesquisada de comunicação social e esportes na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, contra a violência feminina (Arquivo pessoal)

Dificuldades

Não é fácil enfrentar pessoas ricas e famosas, como Daniel Alves, especialmente em Barcelona, onde ele é “ídolo, com uma longa história no futebol e na seleção brasileira”, observa Leda, que é pesquisadora de comunicação social e esportes na Universidade Estadual do do Rio de Janeiro. Um dos maiores obstáculos, de acordo com coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens) da Universidade de São Paulo Flavio de Campos, é “a longa tradição de machismo, com uma linhagem de fama e poder”.

É no futebol que estão os heróis nacionais da historia do Brasil, como Pelé – apelido de Edson Arantes do Nascimento, Manuel Francisco dos Santos – o Garrincha, e Romário de Souza Faria, que protagonizaram a conquista de quatro Copas do Mundo entre 1958 e 1994, mas que também mantiveram “relações abusivas” e até filhos não reconhecidos com muitas mulheres.

“O futebol foi constituído como ingrediente de uma masculinidade violenta, agressiva e tóxica. Desde a infância, é comum presentear as crianças com uma bola”, diz o pesquisador, que complementa: “O corpo feminino é tratado como uma propriedade que, no limite, pode levar ao estupro, inclusive em grupo, e até ao feminicídio” – como o atribuído a Bruno Fernandes, ex-goleiro do Flamengo, o clube mais popular do Brasil, condenado a 20 anos de prisão pelo assassinato de sua namorada Eliza Samudio em 2010.

O pecado do jornalismo

“O índice de masculinidade tóxica é mais acentuado no Brasil do que nos outros países, especialmente  nos europeus. E à cultura abusiva do machismo se soma a conivência de grande parte do jornalismo esportivo”, lamenta Flavio. E isso acaba refletindo na resistência das mulheres ao futebol.

Um decreto vigente entre 1941 a 1979 proibia as mulheres brasileiras de jogarem. O futebol feminino profissional só foi permitido em 1982, lembra Leda, que é pesquisadora em esportes, com graduação em Letras e pós-graduação em Comunicação. Ela lamenta a falta de “autocrítica” da imprensa brasileira em relação à cumplicidade com a violência de gênero e avalia que alguns meios de comunicação só agora começam a reconhecer o seu passado “sexista”.

Para Leda, as crescentes denúncias de agressões sexuais “afetam a imagem do futebol e sua audiência”, fazendo com que muitos deixem de ir ao estádio por medo da violência. Os estádios têm passado por reformas em função dessa realidade, separando torcedores de diferentes clubes e tentando conter o assédio sexual.

Mas o futebol também sofre com a contaminação do racismo e da homofobia, e os três pesquisadores ouvidos concordaram que a situação se agravou durante o governo de extrema direita do ex-presidente Jair Bolsonaro. Leda observa que, mesmo com a contribuição decisiva dos negros para o sucesso do futebol brasileiro, as atitudes racistas ainda persistem.

Por outro lado, trata-se de um espaço muito hostil às minorias sexuais. “A carreira no futebol depende da masculinidade, e assumir a homossexualidade é quase que renunciar à atividade”, admite Flavio, que acredita que a expansão do futebol feminino pode contribuir para a superação desse desequilíbrio, não apenas no campo do esporte. “As mulheres representam a vanguarda das transformações políticas e de comportamento, e impulsionam as mudanças na sociedade”, conclui.

*Foto em destaque: (Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians/Fotos Públicas)

**Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service | Tradução de Marcos Diniz

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